Calle Málaga
Essa Terra é Minha Dona
No início de “Calle Málaga”, uma sequência de legendas nos relembra o contexto histórico do filme: “A cidade de Tânger, no norte do Marrocos, há muitos anos é uma terra de imigração. A uns poucos quilômetros da Espanha, seu status de cidade internacional, e mais tarde de protetorado espanhol, a transformaram em lugar de mescla de culturas. Fugindo do ditador Francisco Franco, uma grande comunidade espanhola se instalou ali nos anos 30. Alguns saíram, outros ficaram, apegados a uma terra que sentem que lhes pertence”. Esse é o contexto. Ele nos aproxima da história, mas não nos envolve, no entanto quando, logo na primeira cena, a personagem María Ángeles passeia pela vizinhança, fazendo compras nos mercadinhos, conversando com vendedores, num lugar onde todos a conhecem, percebemos o exato sentido da palavra pertencimento. Interpretada pela célebre atriz Carmen Maura, María, uma espanhola de 79 anos, apesar de morar sozinha em um apartamento na rua que dá nome ao filme, não vive sozinha, vive com a vizinhança, pertence àquele lugar, ao seu redor estão seus amigos e amigas, numa sociedade de forte sentimento de coletividade, da qual ela participa ativamente. Quando chega a sua família formal, na figura da filha Clara, que mora em Madrid, ironicamente, a vida em família da velha senhora passa a ser ameaçada. Ao contrário da mãe, vivaz, a filha é uma figura amarga, sofre com as dificuldades financeiras, é obrigada a criar os filhos sozinha na Europa, e quer vender o apartamento onde mora María. Apesar da total oposição da mãe, Clara a pressiona a vender os móveis para deixar a casa vazia para a visitação de futuros compradores. Convidada a mudar-se para a Espanha, mais uma vez ela se nega, preferindo ir para um asilo de idosos espanhóis. O que poderia ser uma história de relações tensas de pais e filhos, com estes, friamente, os abandonando, se transforma em uma bela narrativa de reafirmação de identidade, celebração da vida e da Memória. Quando a anciã foge do asilo, volta para o apartamento vazio e começa a recomprar os móveis vendidos, sua existência em Tânger vai se refazendo, seus laços sociais se recompondo e ela vai acrescentando novas amizades, novas atividades e descobre até o amor sensual. Sua vida floresce ou refloresce como ainda mais vigor, até as flores vermelhas, renascidas em sua varanda, parecem estar agora mais vermelhas. O seu desejo de ficar na casa é tão forte quanto o de permanecer no Marrocos, mas María não deixa de ser espanhola: ouve música da terra dos seus pais, cozinha “tapas” e só fala espanhol. As marcas do colonialismo ainda estão ali, no uso do idioma e na presença de um asilo exclusivamente para espanhóis, porém ela está totalmente integrada àquela sociedade e modo vida, é muito mais imigrante do que colona. A presença e ocupação ibérica no Marrocos também foi violenta, porém o domínio e arrogância dos colonizadores faz parte da superestrutura política e nem sempre se refletem nas atitudes individuais. O dia a dia dos seres humanos é mais complexo e cheio de nuances que a trajetória dos poderes. Num contexto maior, pode se dizer que María Ángeles refaz a história das conquistas árabes na Península Ibérica, “invade” na direção oposta, “ocupando”, com muita tolerância o Magreb, uma característica marcante da presença moura na Andaluzia. No filme, espanhóis e marroquinos se misturam em etnias e culturas e pouco se diferenciam entre si. A diretora e roteirista de “Calle Málaga”, Maryam Touzani nasceu em Tânger, e viveu lá por 10 anos. Ela conta que a obra nasceu da perda da sua mãe, e da sua ausência: “Tânger simboliza a minha mãe, voltar lá e filmar sem a presença dela foi muito difícil. Acho que, inconscientemente, escrevi esse filme, para me obrigar a voltar à cidade e encontrar uma maneira de lidar com a ausência. Foi uma experiência bonita, muito intensa, difícil mas totalmente necessária”.
Consagrada em filmes de Pedro Almodóvar como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” e “Ai, Carmela”, de Carlos Saura, a atriz Carmen Maura foi uma felicíssima escolha da diretora. Sua interpretação é intensa, o preciso tom de leveza e irreverência modula qualquer exagero, mas ela não deixa de ser dramática quando a história pede. É uma atuação cheia de nuances, faz brilhar um sentimento forte em Calle Málaga: o de que a velhice não é o fim da vida, mas uma etapa com sabores e desafios próprios. Carmen Maura completa o ciclo desta narrativa muito feminina e maternal de uma diretora e seu encontro com sua própria mãe e a cidade que a viu nascer. Maryam é também diretora de “Adam”, a história segue os passos da personagem Samia, uma jovem grávida e solteira, e sem lugar para ficar. Ela encontra abrigo na casa de Abla, uma viúva de comportamento rígido, de poucos sorrisos, vivendo com a filha e proprietária de uma padaria. A princípio, Abla não acolhe a jovem, mas aos poucos as duas vão se aproximando, descobrindo pontos em comum, no abandono de uma, na solidão de outra. Assim como a personagem Clara, em “Calle Málaga”, Samia enfrenta uma realidade hostil à sua condição de mãe. No caso de Clara, mesmo entrando em conflito com María Angeles, ao final, encontra solidariedade e compreensão por parte da mãe, assim como Samia encontra em Abla. Os dois filmes mais que dialogam, se completam de forma muito contundente na poética do amor pela vida. O filme que abre a 21ª Mostra Mundo Árabe de Cinema consolida o estilo, a personalidade e, sobretudo, a qualidade da obra de Maryam Touzani. É importante lembrar também que, ao contrário do que muitos imaginam, a presença feminina no cinema árabe é muito forte, muito presente. O cinema das mulheres do Levante, do Golfo e do Norte da África se impõe, fala alto e vem conquistando vários prêmios em diversas mostras e festivais de cinema como o próprio “Calle Málaga” em Veneza, “Cafarnaum” de Nadine Labaki em Cannes, “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, em Veneza e “O Presente” de Farah Nabulsi vencedora do prêmio Bafta, entre vários outros. São exemplos de qualidade artística, perseverança e força da mulher árabe.
