Revista Diálogos Nur

Revista Diálogos Nur

Ensaios críticos do catálogo da 21ª Mostra Mundo Árabe de Cinema.

Nur. Luz em árabe. Uma seção dentro do catálogo da 21ª Mostra Mundo Árabe de Cinema para discutir e refletir sobre os temas, ideias e diferentes visões dentro da grande diversidade do mundo árabe e da sua dinâmica cinematografia. Nessa edição, destacamos três produções, “Calle Málaga”, “Hijra” e “Irkalla, o sonho de Gilgamesh”. Os dois primeiros filmes de diretoras mulheres, com temas femininos, como maternidade, independência e posição da mulher nas sociedades árabes, mas também histórias de pertencimento e amor à terra em lugares tão distantes entre si como a Arábia Saudita e Marrocos. A terceira produção é ambientada no Iraque, onde os personagens infantis e adolescentes nos levam a acreditar em sonhos de um mundo melhor pela força da imaginação e da criação artística, mesmo depois de anos de destruição nas antigas terras da Babilônia.

Calle Málaga

Essa Terra é Minha Dona

No início de “Calle Málaga”, uma sequência de legendas nos relembra o contexto histórico do filme: “A cidade de Tânger, no norte do Marrocos, há muitos anos é uma terra de imigração. A uns poucos quilômetros da Espanha, seu status de cidade internacional, e mais tarde de protetorado espanhol, a transformaram em lugar de mescla de culturas. Fugindo do ditador Francisco Franco, uma grande comunidade espanhola se instalou ali nos anos 30. Alguns saíram, outros ficaram, apegados a uma terra que sentem que lhes pertence”. Esse é o contexto. Ele nos aproxima da história, mas não nos envolve, no entanto quando, logo na primeira cena, a personagem María Ángeles passeia pela vizinhança, fazendo compras nos mercadinhos, conversando com vendedores, num lugar onde todos a conhecem, percebemos o exato sentido da palavra pertencimento. Interpretada pela célebre atriz Carmen Maura, María, uma espanhola de 79 anos, apesar de morar sozinha em um apartamento na rua que dá nome ao filme, não vive sozinha, vive com a vizinhança, pertence àquele lugar, ao seu redor estão seus amigos e amigas, numa sociedade de forte sentimento de coletividade, da qual ela participa ativamente. Quando chega a sua família formal, na figura da filha Clara, que mora em Madrid, ironicamente, a vida em família da velha senhora passa a ser ameaçada. Ao contrário da mãe, vivaz, a filha é uma figura amarga, sofre com as dificuldades financeiras, é obrigada a criar os filhos sozinha na Europa, e quer vender o apartamento onde mora María. Apesar da total oposição da mãe, Clara a pressiona a vender os móveis para deixar a casa vazia para a visitação de futuros compradores. Convidada a mudar-se para a Espanha, mais uma vez ela se nega, preferindo ir para um asilo de idosos espanhóis. O que poderia ser uma história de relações tensas de pais e filhos, com estes, friamente, os abandonando, se transforma em uma bela narrativa de reafirmação de identidade, celebração da vida e da Memória. Quando a anciã foge do asilo, volta para o apartamento vazio e começa a recomprar os móveis vendidos, sua existência em Tânger vai se refazendo, seus laços sociais se recompondo e ela vai acrescentando novas amizades, novas atividades e descobre até o amor sensual. Sua vida floresce ou refloresce como ainda mais vigor, até as flores vermelhas, renascidas em sua varanda, parecem estar agora mais vermelhas. O seu desejo de ficar na casa é tão forte quanto o de permanecer no Marrocos, mas María não deixa de ser espanhola: ouve música da terra dos seus pais, cozinha “tapas” e só fala espanhol. As marcas do colonialismo ainda estão ali, no uso do idioma e na presença de um asilo exclusivamente para espanhóis, porém ela está totalmente integrada àquela sociedade e modo vida, é muito mais imigrante do que colona. A presença e ocupação ibérica no Marrocos também foi violenta, porém o domínio e arrogância dos colonizadores faz parte da superestrutura política e nem sempre se refletem nas atitudes individuais. O dia a dia dos seres humanos é mais complexo e cheio de nuances que a trajetória dos poderes. Num contexto maior, pode se dizer que María Ángeles refaz a história das conquistas árabes na Península Ibérica, “invade” na direção oposta, “ocupando”, com muita tolerância o Magreb, uma característica marcante da presença moura na Andaluzia. No filme, espanhóis e marroquinos se misturam em etnias e culturas e pouco se diferenciam entre si. A diretora e roteirista de “Calle Málaga”, Maryam Touzani nasceu em Tânger, e viveu lá por 10 anos. Ela conta que a obra nasceu da perda da sua mãe, e da sua ausência: “Tânger simboliza a minha mãe, voltar lá e filmar sem a presença dela foi muito difícil. Acho que, inconscientemente, escrevi esse filme, para me obrigar a voltar à cidade e encontrar uma maneira de lidar com a ausência. Foi uma experiência bonita, muito intensa, difícil mas totalmente necessária”.

Consagrada em filmes de Pedro Almodóvar como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” e “Ai, Carmela”, de Carlos Saura, a atriz Carmen Maura foi uma felicíssima escolha da diretora. Sua interpretação é intensa, o preciso tom de leveza e irreverência modula qualquer exagero, mas ela não deixa de ser dramática quando a história pede. É uma atuação cheia de nuances, faz brilhar um sentimento forte em Calle Málaga: o de que a velhice não é o fim da vida, mas uma etapa com sabores e desafios próprios. Carmen Maura completa o ciclo desta narrativa muito feminina e maternal de uma diretora e seu encontro com sua própria mãe e a cidade que a viu nascer. Maryam é também diretora de “Adam”, a história segue os passos da personagem Samia, uma jovem grávida e solteira, e sem lugar para ficar. Ela encontra abrigo na casa de Abla, uma viúva de comportamento rígido, de poucos sorrisos, vivendo com a filha e proprietária de uma padaria. A princípio, Abla não acolhe a jovem, mas aos poucos as duas vão se aproximando, descobrindo pontos em comum, no abandono de uma, na solidão de outra. Assim como a personagem Clara, em “Calle Málaga”, Samia enfrenta uma realidade hostil à sua condição de mãe. No caso de Clara, mesmo entrando em conflito com María Angeles, ao final, encontra solidariedade e compreensão por parte da mãe, assim como Samia encontra em Abla. Os dois filmes mais que dialogam, se completam de forma muito contundente na poética do amor pela vida. O filme que abre a 21ª Mostra Mundo Árabe de Cinema consolida o estilo, a personalidade e, sobretudo, a qualidade da obra de Maryam Touzani. É importante lembrar também que, ao contrário do que muitos imaginam, a presença feminina no cinema árabe é muito forte, muito presente. O cinema das mulheres do Levante, do Golfo e do Norte da África se impõe, fala alto e vem conquistando vários prêmios em diversas mostras e festivais de cinema como o próprio “Calle Málaga” em Veneza, “Cafarnaum” de Nadine Labaki em Cannes, “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, em Veneza e “O Presente” de Farah Nabulsi vencedora do prêmio Bafta, entre vários outros. São exemplos de qualidade artística, perseverança e força da mulher árabe.

Hijra

Hijra a Força Silenciosa das Mulheres

Janna, uma menina saudita de 12 anos e a irmã Sarah de 18, são levadas por sua avó Sitta, para fazer o hajj, a peregrinação à cidade de Meca, uma obrigação religiosa para todos os muçulmanos que tiverem condições econômicas e de saúde para fazê-la. Sitta é uma senhora, imigrante do Uzbequistão, rígida na condução do comportamento das netas, muita arraigada a determinados valores morais e culturais, mas decidida e independente. Durante a viagem de ida para o hajj, Sarah foge da companhia da avó e da irmã e desaparece em meio a multidão. Enquanto Sarah, que só aparece fisicamente nos início do filme, busca por uma mudança de vida e por o que ela entende como liberdade, Janna está em processo de descoberta e amadurecimento, prestes a deixar de ser uma criança. Sitta, a avó, precisa controlar a difícil situação em que se encontra e sair na busca da neta que, para ela, pode estar em risco. Nessa jornada elas têm a ajuda do motorista e comerciante Ahmad, que a princípio parece ser apenas um malandro aproveitador, vendedor de água abençoada falsa, mas é só mais um imigrante ilegal, tentando sobreviver em duras condições. Nenhum personagem pode ser rotulado de forma absoluta como mau ou bom, honesto ou desonesto, compreensivo ou intransigente, libertário ou conservador, eles respondem conforme as situações que mudam constantemente, interagem, se confrontam e tudo fica indivisível. Não há lugar para o maniqueísmo, são mulheres de verdade vivenciado uma história. A visão do Norte Global sobre a Arábia Saudita e as mulheres caricaturalmente submissas escondidas sobre a burka (na verdade chama-se niqab), torna-se vazia e os estereótipos vão caindo um por um em “Hijra”. O desejo declarado pela diretora, Shahad Ameen, é mostrar a complexidade desta sociedade, as impressionantes belezas naturais do país, o mosaico cultural saudita e principalmente a força silenciosa das mulheres. Só o fato de ser um filme da Árabia Saudita, dirigido por uma mulher, pode surpreender os desavisados. Vale a pena nos determos nas mudanças que estão acontecendo no audiovisual da península arábica. Somente em 2018 as salas de cinema foram reabertas depois de terem sido proibidas de funcionar por 35 anos. De lá pra cá foi criada a Saudi Film Commission, vinculada ao Ministério da Cultura e órgão de fomento ao cinema local, e o Festival do Mar Vermelho, que premia filmes do mundo árabe. Nos últimos anos, mais e mais têm aparecido nos streamings comerciais como Netflix, produções como “Cartas na Manga”, uma comédia em quatro episódios de tom teatral e algo ingênuo; “Barakah com Barakah”, comédia romântica; “Alarme de Incêndio”, drama com personagens ainda um tanto caricatos, e “Basma”, um drama mais realista. Não é só em quantidade que o audiovisual desse país do Golfo tem evoluído, mas as produções estão ficando mais sofisticadas, até chegarmos hoje à “Hijra”, que pode ser exibido em qualquer festival do mundo e concorrer com filmes de cinematografias mais tradicionais como as do Sudeste Asiático, Europa e América Latina.

O primeiro filme saudita dirigido por uma mulher foi “O Sonho de Wajda”, de 2012, quando essa atividade ainda era proibida para mulheres. Hoje a participação feminina cresceu de forma fenomenal: 50 por cento dos filmes da Arábia Saudita são feitos por mulheres, em comparação a quatro por cento dos filmes de Hollywood. Em todo o mundo árabe filmes dirigidos por mulheres ficam em torno de 30 por cento das produções. O que contraria toda e qualquer generalização sobre o mundo árabe e o papel da mulher. No documentário “Filmes Ruins, Árabes Malvados, Como Hollywood Vilificou um Povo”, o pesquisador e escritor Jack Shaheen nos mostra que a visão do cinema estadunidense sobre a mulher árabe variou, desde o início do cinema, entre mostrá-las como exóticas e altamente sexualizadas bailarinas de dança do ventre, até o final do século XXI, quando a passou a ser retratada ou como terrorista, ou como uma mera sombra de preto, calada e perambulando no fundo das cenas de multidões caóticas nas ruas de alguma cidade árabe.

Em “Hijra” nós temos mulheres determinadas e ativas, tanto no rompimento das amarras sociais, quanto na manutenção de tabus e proibições à mulher. Em uma cena em que Sitta faz uma visita o túmulo do seu pai, aparece um grupo de mulheres, todas de niqab, gritando que os cemitérios são proibidos para mulheres, e diga-se, essa não é uma regra religiosa; mas Sitta ignora os apelos das outras e segue sua devota visita ao pai. Outra passagem significativa que demarca diferenças culturais e visões de mundo, e não atraso, como o lado de cá imagina, diz respeito à relação com a natureza e os animais. O motorista Ahmad diz para a menina Janna, que existem dois animais que nunca esquecem o mal que lhe fizeram, um deles é o camelo. Janna pergunta: qual é o outro animal? Ahmad responde que o outro é a mulher. A personagem poderia ter interpretado como uma ofensa machista, como seria no Brasil comparar uma mulher a um bicho, mas Janna ri. Comparar com um camelo, não é ofensa, é um animal que faz parte daquele modo de vida, daquela cultura, não é um ser inferior, têm suas qualidades. Para o Islã, não se pode xingar alguém chamando-o, por exemplo, de burro, porque isso ofende o humano e o animal. Quem somos nós para julgar que o animal não tem inteligência, já que é também uma criatura de Deus? No final, e cuidado que lá vem spoiler, Sitta quando morre vira um camelo. Uma mulher que jamais esqueceu sua história e os sofrimentos que a vida lhe deixou em sua árdua trajetória de imigrante, transformada num camelo, um animal resiliente, determinado e lutador como ela. Mas o final de verdade, ou um deles, e aqui não há spoiler, é a demolição do imaginário orientalista sobre as mulheres árabes, o Islã, e a Arábia Saudita. A recitação do Corão e o chamado das orações, visto como sinistro pelo Ocidente é, em “Hijra”, transmitido como poesia espalhando-se pelo ar, a peregrinação à Meca, incompreendida e exótica para olhar estrangeiro, é tratado como um grande caldeirão cultural, a mulher no lugar de ser vista como submissa, é forte e lutadora; numa bela história de pertencimento, ancestralidade, busca pela autonomia, luta contra os preconceitos e discriminações, respeito e devoção à cultura e a um modo de vida.

Irkalla, o Sonho de Gilgamesh

NO IRAQUE, A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO AINDA NÃO ACABOU

Gilgamesh é o quinto rei da primeira dinastia que governou Uruk há mais de 4 mil anos na Mesopotâmia, atual Iraque. A história desse soberano se tornou lendária e sua figura mitológica foi dotada de divindade, e atribuído a ela superpoderes. Sua trajetória é a mais antiga narrativa da história da humanidade. Na parte final dessa verdadeira epopeia, o Deus Anu, para combater a arrogância e o poder exacerbado de Gilgamesh, cria Enkidu, um ser meio homem, meio animal, que vive num ambiente selvagem. Enkidu desafia o Gilgamesh, mas este o derrota. Eles acabam se tornando amigos, até que outro deus, Shamash, envia Lamassu, outra criatura mitológica - um touro alado com cabeça humana - em uma nova tentativa de controlar o rei e seu amigo recente. Em uma investida certeira, Lamassu mata Ekidu e o joga nas profundezas do rio. Essa morte não é absoluta, as águas escuras do rio são também um mundo subterrâneo, ou um “submundo” conhecido como Irkalla, de onde Gilgamesh quer resgatar o amigo e trazê-lo de volta à vida na superfície.

O desejo do menino Chum Chum, personagem principal do filme “Irkalla”, o sonho de Gilgamesh”, é o mesmo do mito do soberano semideus. No Iraque dos nossos dias, ele sonha em ressuscitar seus pais, assassinados por milicianos e atirados no rio Tigre, enquanto mora na rua junto com um bando de garotos órfãos que trabalham catando lixo reciclável. Todos procuram fugir daquela vida quase insuportável, cada um deles tem uma forma de escape diferente. Na primeira cena, ao mergulhar no rio, Chum Chum acredita ter visto Gilgamesh e que ele vai ajudá-lo em seu desejo. Vivendo numa Bagdá semi-destruída, marcada pela miséria, pela violência das milícias e da polícia iraquiana, ele gosta de ler, assistir desenhos animados e frequentar as aulas da Sra. Mariam, uma mulher amarga, sofrida e, por vezes, intolerante, que dá aulas dentro de um ônibus para o grupo de crianças catadoras. Mas enquanto ele sonha alto, seu amigo mais velho, Moody, tem desejos menos imaginativos, mas que na situação em que vivem, se tornam tão irreais como o de Chum Chum: seu sonho é conseguir um passaporte e mudar para a Holanda, junto com Sarah, uma garota que trabalha na limpeza de um bordel. Os dois amigos praticam pequenos roubos e golpes, porém Moody vai, cada vez mais, se envolvendo com uma milícia ao estilo Estado Islâmico.

Em “Irkalla”, evidentemente, não estamos diante de um roteiro mais tradicional, hollywoodiano, que inicia com uma situação de normalidade até que algum acontecimento traumático ou uma revelação bombástica provoca uma virada na história. Não, as coisas já começam ruins e vão piorando. Aqui se trata do Iraque, país cuja destruição começou com as sanções da ONU em 1990, provocando miséria e a morte de 500 mil crianças por desnutrição e falta de assistência médica. Mas retratar essa realidade com uma estrutura narrativa de ambientação crua, dura, não significa render-se ao pessimismo. Para o diretor do filme, Mohamed Al Daradji, ainda há esperanças de mudanças, até mesmo para as crianças do Iraque: “Há esperança, porque nós artistas e ativistas podemos criar boas expectativas por nós mesmos, trazendo otimismo, de que essas crianças podem ser apoiadas, não estão completamente abandonadas. Nós nascemos numa sociedade onde a guerra é dominante ao nosso redor. É muito importante contar a nossa história, no cinema e nas artes, para percebermos para onde estamos sendo levados, questionar onde está a nossa identidade. Eu acho que perdemos a identidade em meio a todas estas guerras, parte da nossa reação depois da última invasão norte-americana, em 2003, é não saber quem somos como sociedade. Eu e mais alguns cineastas como eu estamos procurando no passado a nossa identidade, e que seja útil ao Iraque hoje. Eu sinto que estamos criando uma nova identidade com a arte. Porque a guerra é muito difícil, a invasão estrangeira é muito difícil. Imagine que numa Bagdá em paz poderíamos desenvolver plenamente o nosso cinema, poderíamos tentar ir além dos nossos limites, mas se você não tem eletricidade, não tem água, não tem infraestrutura, é muito duro”.

A esperança na criação artística para nos colocar, ainda que momentaneamente, em um outro mundo, não para na temática do filme. Só o fato de produzir um filme na atual realidade iraquiana, já é uma tentativa de romper, ou ao menos mitigar, o círculo perverso de perda e desumanização de uma população, e de sua identidade subtraída, como lembra Mohamed Al Daradji. Todos “viajam”, personagens reais (diretor, produtor, atrizes, atores) e fictícios. É poder do cinema e da arte para nos reconhecermos como pertencentes a determinado lugar do mundo, seja na superfície ou no “submundo” citado no início do texto. É o mesmo que acontece hoje na Palestina. Em meio aos escombros de Gaza, jorram notas musicais, fluem poemas, brotam pinturas. A vida pulsa, a criação nunca para, e mantém os povos atacados vivos, e dignos. Não podemos esquecer que o Iraque tem sofrido, ao longo das últimas quatro décadas, um processo de destruição semelhante ao que a Palestina enfrenta desde 1948. E uma das respostas da resistência é a criação artística. A imaginação não pode ser controlada. Os fascistas odeiam a cultura. Mesmo que erroneamente atribuída a Goebbels, a frase “quando ouço falar em cultura saco meu revólver”, é arquetípica do nazi-fascismo.

Apesar do retrato da tristeza, da desilusão de uma infância não vivida, Mohamed ressalta que o público, tanto em Toronto, Locarno ou Bagdá onde foi exibido, percebe “Irkalla” como uma obra sobretudo poética. As plateias ficam encantadas ao ver o cativante personagem Chum Chum sair voando, montado nas costas de um ser mitológico, procurando escapar de um ambiente que não cabe em seu coração infantil. Esse ser se chama Lamassu e surgiu durante a civilização Assíria. Com seu tronco de homem, de longa e retilínea barba, corpo de touro ou leão, e longas asas, os reis colocavam a estátua do Lamassu na entrada de seus palácios transformando-o em guardião e protetor das cidades e povos da Babilônia. Olhando para o Iraque hoje poderíamos dizer que o Lamassu ou mesmo Gilgamesh falharam em proteger a nação e o povo iraquiano? Não exatamente, as criaturas mitológicas mesmo de tempos imemoriais inspiram a imaginação e são referências de identidade para um país tão maltratado. A civilização onde nasceu o alfabeto, a agricultura, a pecuária e a primeira narrativa dramática da humanidade, nos brinda hoje com um cinema poderoso, autêntico, único, em filmes como “Filhos da Babilônia”, também dirigido por Mohamed Al Daradji, “A Aurora do Mundo”, de Abbas Fahdel e “Jardins Suspensos”, de Ahmed Yassin Al Daradji, mostrado na 18ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Essa é a melhor resposta contra àqueles que desejam, morbidamente, a destruição, a dissolução e o caos, numa das mais antigas civilizações da história. A primeira narrativa da humanidade ainda pode ter um final feliz.

A Revista Diálogos Nur é escrita e editada por Gil Rodrigues.

Agradecimentos: Idrissa Deme, por seus esclarecimentos sobre o Islã, e a Mohamad Al Daradji, pela gentil entrevista.